MILF: MOTHER I’D LIKED TO FUCK



Uma nova perversão: a mulher normal

MILF, uma definição
MILF significa “Mother I’d like to fuck”, isto é, “Mãe que eu gostaria de ter comido” (ou transado, ou “fodido”), ou algo assim.
Se você entrar em um site pornográfico qualquer, verá várias categorias: anal, negras, gordas etc. E, possivelmente, verá lá também uma sigla: “MILF”.

Se você clicar em “MILF”, será, provavelmente, levado a uma página com várias fotos, onde, escolhendo-se uma e clicando-se sobre ela, você verá uma galeria com várias fotos desta mulher, em poses eróticas, sexuais, ou pornográficas.(Ou será levado a outro site, de nome sugestivo como “Madura para você”, “O tabu da mamãe”, “Só mamães” etc.)
Estas mulheres nas páginas de MILF não necessariamente são mães. Significa, geralmente, que têm mais de 30 anos. Mas o ponto não é apenas a idade, pois não são belíssimas modelos balzaquianas. Algumas, pelo contrário, são até bem feias. Na prática, MILF significa mulheres “normais”, aquelas que você vê dezenas ao circular pelas ruas. Aquelas que, possivelmente, nunca ninguém perguntou a elas, a sério: “Você já pensou em ser modelo?”.
Muitas dessas mulheres nas páginas de MILF são gordinhas. Algumas são obesas. Outras têm os peitos caídos. Celulites. Umas já passaram não dos 30, mas mesmo dos 40, dos 50… Muitas, certamente, são mães mesmo. Algumas podem ser avós. Enfim, mulheres comuns. Geralmente, sem photoshop.
Os próprios ensaios fotográficos tentam realçar esse lado “caseiro” das MILF: pouca produção, às vezes ao lado de um fogão etc.
De como o normal virou uma perversão
As páginas de MILF fazem-nos levantar uma hipótese: o normal virou uma perversão.
Perversão é uma palavra que, como tantas outras, tem diversos sentidos. Pode significar o uso de um instinto para algo que foge de sua função (ex.: comer pedras). Pode significar a maldade (ex.: “Fulano é perverso, impiedoso…”). E, em termos sexuais, o “pervertido”, o “tarado”, é o que busca o bizarro.
E bizarro é o que foge bastante do comum. O que é o “sexo bizarro”? Se procurarmos por isso nas páginas da internet, encontraremos: sexo com mulheres muito gordas, sexo com anões, sexo com animais etc.
Existe, então, uma distinção entre o sexo comum, ou “normal”, e o bizarro. O sexo comum seria aquele que você pratica com uma pessoa comum. Desta forma, MILF seria o normal, o comum. Mas não, MILF virou uma categoria, quase uma bizarrice. Virou uma perversão.
Por que é uma perversão, e não o “normal”? Porque, para as páginas de mulheres nuas, o normal é que exponham mulheres mais jovens, bonitas, magras, gostosas. O “normal”, para estas páginas, é consoante com o padrão estético atual. Se o padrão que é imposto ao desejo é querer esta mulher magra, “lipada”, “photoshopada” etc., as mulheres comuns, as anãs, as mastectomizadas, as sem um braço, as obesas, as que mantêm a buceta bem cabeluda, as velhas etc., todas as que fogem em algo do padrão podem ser categorizadas como desejos desviantes, inusitados, enfim, pervertidos.
A vida real
Acontece que, na vida real, os homens transam é geralmente com as MILF, e não com as “top”. Então, por que, para esse homem comum, o MILF é uma perversão? Não, não é! O seu fetiche, o seu inalcançável, é mesmo a top, a capa da Playboy. Apesar destas top serem minoria, serem exceção à regra, desejá-las não é considerado perversão. Por quê? Porque é a elas que a cultura empurra o nosso desejo, quase nos obriga a querê-las mais do que a uma MILF. O homem comum transa com a mulher comum, a deseja, mas seu fetiche é a top, e esse desejo não é perversão porque é “o esperado” (pela cultura de massas).
A perversão real é fugir do culturalmente esperado. Isto é, desejar uma MILF mais do que se deseja uma top. Ter a opção de entrar numa página de jovens gostosas e preferir entrar numa de trintonas gordinhas. Esse desejo que nada contra a corrente cultural é pervertido, é isso que os sites de sexo (e não apenas eles, obviamente) estão nos ditando, nos dizendo: “Hein, seu taradinho, querendo ver as coroas, hein!? Querendo ver as gordinhas, hein!?”. Este homem que prefere uma mulher comum virou um pervertido.
Psicanálise da perversão
A cultura do desejo talvez seja uma possibilidade apenas humana. Difícil imaginarmos macacos que, em determinada época, resolvessem eleger a magreza como padrão estético. Ou um grupo de macacos que enaltecesse macacas “emo”.
A cultura só pode ser percebida porque ela é passageira, ela é moda. Ou porque muda de região para região. Cultura é o que não é puramente biológico. Pavoas sempre vão gostar dos pavões mais vistosos, não existe uma “cultura do pavão magro”. O humano é diferente: já existiu o padrão renascentista da gordurinha ser o ápice da beleza. Hoje é o contrário.
Talvez, em cada época, o fetiche seja sempre o que esteja mais difícil de ser encontrado, adquirido, possuído. Se é dito que a humanidade nunca esteve tão obesa, na época do Renascimento talvez as gordinhas fossem produto escasso, por isso fossem cultuadas. O humano quer o inalcançável, o mais difícil. “Se as mulheres a meu redor são MILF, quero a top.”
No Renascimento, houvesse internet, talvez veríamos nas páginas principais (das mulheres que “temos” que desejar) muitas gordinhas, as “top model” da época. E nas páginas MILF, mulheres mais magras, aquelas comuns, que viviam em condições precárias e não tinham alimentos tão facilmente, daí serem magricelas.
O pervertido, naquela época, seria desejar uma magra, preferir uma magra. O pervertido é aquele cujo desejo foge do desejo da massa. Como a massa sempre irá desejar o que não faz parte da massa (não tudo o que foge, mas um tipo específico, padronizado – no caso, hoje, as jovens magras e “siliconadas”), pervertido é também aquele que deseja o que está na massa.
A cultura de massas fez o homem que deseja o normal ser considerado um pervertido. Ela inverte totalmente os valores, portanto. O que deveria ser considerado um desejo normal, passa a ser pervertido.
Um pervertido da Literatura, fronteiriço
O pervertido clássico é aquele homem que aparece nos contos do Marquês de Sade. Hoje já nem seria considerado tão pervertido, posto que várias de suas excentricidades sexuais passaram a ser culturalmente aceitas ou ae mesmo “recomendadas”, vide as revistas feminias.
Mas escritor tcheco Milan Kundera tem um personagem que quase se enquadra nessa definição “distorcida” (sto é, “pervertida”) de “perversão”: a do homem que deseja a mulher comum. No seu livro “A insustentável leveza do ser”, Tomas não é fascinado pelas beldades, mas pela beleza quase excêntrica da mulher comum. Cada MILF é diferente de uma outra. Uma tem as estrias de tal maneira. Outra os peitos são um tanto mais tortos. Tomas deseja as MILF, mas não as iguala, pelo contrário, as singulariza. Distigüir uma da outra é buscar o “defeitinho” específico de cada mulher. Tomas talvez esteja na fronteira entre o pervertido clássico e o pervertido criado pela moda. Ele não quer a obesa mórbida. Mas também não quer uma MILF “padrão”, justamente porque, entre as MILF, não existe padrão. Por isso é que são MILF.
Tanto é que, nos sites de MILF, muitas vezes as galerias de fotos estão hospedadas em sites especializados em outras “bizarrices”, como os de BBW – “Big Beautiful Womam”, isto é, mulheres gordas e bonitas. As MILF estão no centro e na fronteira. Fronteira além da qual existem as top e, no pólo oposto,as obesas mórbidas.
Se a MILF for um pouco mais velha, cai também nos sites de “Oldies”. Se for um pouco mais gorda, “BBW”. Se for mais peluda, “hairy”. Se estiver grávida, “Pregnant”. Etc. Se ela não for nada de mais em nenhum aspecto, seria a MILF “padrão”, caso isso existisse – nem top, nem nada bizarra.
O capitalismo não poupa ninguem
A fetichização da mulher comum, a comercialização dela, é fruto do capitalismo. Alguém pensou: “Por que não vendemos fotos de mulheres comuns?”. Não foi esse vendedor que inventou o desejo por MILFs – esses “pervertidos” sempre existiram. O que o vendedor faz resume-se a: (1) comercializar para os que já desejam e (2) criar novos mercados. Ele cria esses mercados automaticamente, quando começa a vender a MILF.
O homem comum pode pensar: “Por que estão vendendo o que eu tenho de graça, aqui em casa?”. Curioso com o desejo alheio (já que ele mesmo deséja é as top), ele lança um olhar diferente sobre a esposa – e especialmente sobre as MILF do site, já que são aquelas que ele não têm. E conclui: “Eu também quero MILFs!”.
Se o mercado aumenta, aumenta também o número de pessoas que querem lucrar em cima disso. Criam-se mais sites. Que precisam de modelos…
“Você toparia fazer umas fotos sensuais para um site?”

Certamente, muitas destas mulheres que aparecem em sites de MILF não eram modelos pornô quando eram jovens. Não são prostitutas que envelheceram. Eram, simplesmente, mulheres comuns.
Assim, não estavam se oferecendo para o mercado do sexo – o mercado é que teve que ir atrás delas.
Talvez colocando um anúncio no jornal. Ou, talvez, indo diretamente à caça. É interessante imaginar a abordagem. O encarregado de encontrar as MILF para os ensaios não deve chegar às senhoras perguntando diretamente: “Quer posar para um ensaio pornô?”. Deve usar um convencimento gradual: “Você é muito bonita, sabia?” Ela se assusta um pouco: “Eu?”. “É! Eu tenho um site, que expõe fotos de mulheres maduras e bonitas, você não toparia fazer umas fotos? Pagamos bem!”. Depois é que ela será convencida a ficar nua. Depois, a abrir as pernas. Depois, a enfiar coisas na buceta. Depois, a transar com desconhecidos(as). Etc.
O dinheiro e o ego inflado não poupam ninguém. Nem as MILF.

[PS.: este texto gerou uma discussão no site Mera Falácia]

Crédito das imagens: Mature Orgasm e Karups Older Women

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