UM FILME MUITO RUIM, MAS TALVEZ PERFEITO



“O pântano” (“La ciénaga”, Argentina, 2001)

Organizei recentemente uma Mostra do Cinema Argentino. Em minha casa, para mim mesmo. Compilei na internet uma liste de filmes deste país e fui atrás, em locadoras especializadas. Não achei todos, mas consegui cerca de 15.

Achei quase todos bons, alguns muito bons e um ou outro fraquinho. O que mais gostei foi “Valentin”. Mas quero falar sobre o que menos gostei, “O pântano”, pois este me fez pensar mais do que o que mais gostei.

A história de “O pântano”: uma grande família, em um sítio e em uma cidade pequena, em dias de calor. Pequenos conflitos, um casamento que se acaba etc. Mas quase nada acontece. Não há um clímax pelo qual se esperar. Até aí, nada de muito diferente dos outros filmes argentinos que vi. O que faz este ser ruim, então?

Personagens demais, talvez. Mas este ainda não seria exatamente o problema. A comédia romântica “Simplesmente amor”, por exemplo, acompanha várias histórias, mas não há esta sensação de um filme que vai do nada a lugar nenhum. Pode ser porque, mesmo que de forma breve, fornece-se uma vida prévia aos personagens, de forma com que podemos nos identificar (mesmo que antipatizando) com eles. Ou poderia ser porque o filme fecha todas as histórias, esperamos desfechos e eles acontecem. Mas este pensamento é errôneo, não é só porque o filme tem um “final” (ou finais, no caso) que vamos dizer que ele é interessante no meio do filme. Se “Simplesmente amor” tivesse acabado “antes do fim”, eu teria gostado dele até aquele momento. Se “O pântano” tivesse desfechos mais objetivos, eu não teria gostado mais dele.

[Eu poderia, para parecer culto, ter comparado com "Short cuts", de Robert Altman, outro filme de várias histórias fragmentadas. Mas acho este filme mais parecido com "O pântano", no sentido de ser sem-graça, do que com "Simplesmente amor". É "pobre" fazer uma crítica elogiando-se um filme comercial, uma comédia romântico. Mas, mais feio ainda, é fingir que gostou de algo "cult" só porque é cult.]

O problema de “O pântano” seria a história com falta de objetivo? Poderia ser. Mas, já disse anteriormente, há muitos filmes argentinos sobre o nada que são bons.
Talvez a mistura das duas coisas, isto sim seria uma justificativa mais consistente: personagens rasos e história oca.

Pois bem, eu não gostei de “O pântano”. Mas aí surge meu questionamento: isso significa dizer que o filme é ruim?

Não quero entrar aqui naquela questão sobre a autoridade do julgador: quem é que pode dizer se algo é bom ou ruim? “Gosto é gosto” etc. Suponhamos que a autoridade única fosse eu: eu poderia dizer se um filme é bom ou não.

Sendo assim, tenho dois vereditos. Um: não gostei de “O pântano”. Dois: não sei bem dizer se ele é ruim.

Porque, talvez, a intenção da diretora fosse essa mesmo: a de desagradar o espectador. A sensação que tive, durante o filme, foi a de ter alugado um quarto em uma casa cheia de desconhecidos. Aqueles draminhas não me interessam, mas são um zumbido constante no meu ouvido. Vontade de sair da casa, vontade de que o filme acabasse logo.

Mas será que não seria essa a vontade da criadora? Se foi, não temos um filme ruim, mas um filme perfeito, porque atingiu plenamente seus objetivos.

Assim como um grande poeta que decidisse, deliberadamente, escrever poemas bobinhos, infantilóides. Quem não conhecesse o autor e os lesse, acharia um lixo. Mas o autor não se importaria com isso, ele diria apenas “acordei com vontade de produzir lixo”.
O que o filme me fez perceber, então, é que uma obra de arte deveria ser sempre avaliada em dois níveis. Se ela é agradável ou não (“O pântano” me desagradou, como obviamente se percebe), e se ela é bem-sucedida ou não, nos seus objetivos. Não sei dizer isso sobre “O pântano”, pois não li nada sobre o filme – e nem estou a fim de ler, isso não mudará em nada minha vida. Mas, se a diretora quis que o filme agradasse, foi muito mal-sucedida. Já se quis que achássemos aquelas vidas vazias, desinteressantes, sem-graça, parabéns!

Desta forma, é possível que uma obra seja, ao mesmo tempo, horrível e perfeita. Picasso, por exemplo: me desagrada, em geral, mas reconheço que foi muito bem-sucedido no seu intuito, que era justamente este, causar estranhamento, questionamentos, um certo incômodo.

Surge então uma outra questão, mais difícil de ser respondida. Será que, sabendo a intenção do autor com antecedência, veríamos a obra com maior benevolência, a ponto de acharmos agradável algo que, sem a informação prévia, nos desagradaria? A sugestão afetaria tanto a apreciação?

Esta questão é complicada porque o teste exato não tem como ser feito. Se contarmos a alguém a intenção do filme e ele o assistir, terá uma impressão. Mas como sabermos a impressão que ele teria se o assistisse sem a informação prévia. O inverso é válido: assiste-se o filme sem a informação e se tem uma impressão. Dá-se a informação. O filme é revisto. Mas os olhos já estarão contaminados pela primeira audiência da obra.

Poderia ser feito um teste menos exato. Dois grupos distintos, um assiste sem a informação prévia e outro com. Mas os críticos de arte pouco interesse têm pela ciência pura, pela matemática. Estamos em um mato sem cachorro. (Ou em “um pântano”, mas esse trocadilho seria imperdoável.)

mais: opiniões de outros espectadores sobre o filme (uns amaram, outros odiaram)

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