Arquivo por categoria Olimpíadas da China

SÍNDROME DE 3o MUNDO

imagem: Globo.com Atualização (17/08): onde está escrito “Jade Barbosa”, leia-se também Diego Hypolito.

“Lá vai Jade Barbosa para sua série no solo…”. E eu pensei: lá vai ela cair… Caiu. E eu pensei: agora vai chorar. Só choramingou, aparentemente… E ainda caiu mais uma vez, no salto. E já tinha caído alguns dias antes, em outra prova…
Aí a comentarista da Globo passa a mão na cabeça dela, dizendo que ela fez bonito, que é motivo de orgulho e blá-blá-blá. O problema é esse.

Jade Barbosa tornou-se conhecida e “queridinha” no Pan do Rio, em 2007. Caiu, chorou, todo mundo se condoeu com aquela “menininha” lacrimejando – eu também. No dia seguinte ela voltou, fez tudo certo e alcançou a glória, todo mundo vibrou – eu também.
Talvez tudo isso tenha marcado Jade Barbosa, deve ter marcado. E talvez ela agora fique com aquela síndrome de impotente sexual, que fica pensando o tempo inteiro “Não posso broxar, não posso broxar…”. Pensando apenas isso, se desconcentra da mulher à sua frente, e o que acontece? Broxa mesmo! Talvez Jade fique pensando “Só não posso é cair!”. E desconcentra-se, e cai.
Cair, nesse esporte, é relativamente normal. O problema é ficarmos passando a mão na cabeça, quando talvez fosse muito mais produtivo um “pedala-robinho”. Os teóricos da terapia cognitivo-comportamental podem dizer se tenho ou não razão. Se eu passo a mão na cabeça e digo “Ah, foi bonitinho… Você tem que se orgulhar do seu tombo…”, o que estou fazendo? Se não estou reforçando o comportamento, ao menos o endossando estou.
Jade Barbosa – e não só ela, mas tantos outros atletas brasileiros – precisa de um “inimigo”. Uma comentarista que dissesse: “Mas que droga, Jade, vai cair e chorar de novo!?” (Sim, ela não escutaria isso na hora, mas depois ficaria sabendo.) Dizer isso não quer dizer que não se torce por ela. Eu torço por ela.
Mas para os comentaristas brasileiros, tudo está bom… Jade terminou em décima, a melhor colocação que o país já obteve em uma Olimpíada. Nossa, que ótimo, um dia a gente chega lá… No momento que escrevo este texto, o Brasil tem 4 medalhas de bronze (e só) e ocupa a 39a colocação na classificação geral. Tá bom demais, né, porque somos um país pobrezinho… Então qualquer coisa que vier é lucro…
É claro que boa parte da culpa por este desempenho pífio (para um país que tem mais de 170 milhões de habitantes, atrás de vários países relativamente minúsculos), parte da culpa é da pobreza mesmo. E parte da culpa desta pobreza é dos des-governos que tivemos por séculos. Porém, parte da culpa dos des-governos é nossa, que lá colocamos e mantemos certos trastes. E parte da culpa desse fracasso olímpico é também deste povo que aceita esta condição de vítima, de mendigos-das-medalhas. Por fim, culpa também dos comentaristas que não podem falar que o desempenho brasileiro é desastroso, porque isso diminuiria a audiência.
Isso tudo me fez lembrar um vídeo que ficou famoso na internet, quando Massa fez o que Rubinho não conseguiu em 12 anos – ganhar o GP do Brasil:

Talvez seja estes “inimigos” que faltem aos atletas brasileiros. Alguém que possa tirá-los do sério e enraivecê-los, a ponto de pensarem: “Ah, é? Agora você vai ver quem vai cair!”.
Levanta, Jade! E pára de chorar!

PS.: confira o blog Bronze Brasil 2008

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